Ainda era 2025 quando o mundo do K-pop aqui no Brasil virou de cabeça para baixo com os anúncios para 2026. O calendário já está recheado de shows, e olha que o ano nem começou direito ainda.

“Mas 2025 também foi bem cheio, não foi?”

Concordo. Mas a gente precisa olhar para essa nova temporada com uma perspectiva um pouco diferente e pensar em como o K-pop finalmente está, de fato, furando a bolha da cena musical no Brasil.

Obviamente, a onda hallyu é um movimento que cresceu muito e se espalhou pelo mundo, principalmente de 2018/2019 até hoje. Mas quanto desse movimento vem “de dentro para fora”, com a cultura sul-coreana influenciando diferentes áreas da cultura brasileira, e quanto são os brasileiros entrando nesse nicho e, consequentemente, imergindo na cultura coreana?

Fazendo um comparativo com outras culturas, como a japonesa, por exemplo: uma pessoa que vai a um rodízio de comida japonesa não necessariamente é fã de animes. Da mesma forma, bandas de J-rock reúnem em seus shows, além de otakus, um público amplo de fãs de rock que vai ao evento pelo gênero musical em si. Existe, sim, um público-alvo que consome essa cultura, mas ele é muito mais diverso. Ainda há estereótipos, claro, mas esse tipo de associação acaba ficando mais restrito a eventos específicos, como o Anime Friends, por exemplo.

No K-pop, apesar da quantidade considerável de shows e eventos, não é incomum encontrar sempre as mesmas pessoas, com estilos parecidos, nas mesmas casas de show, ou seja, um público ainda bastante nichado.

O K-pop continua sendo visto como um subgênero que carrega uma imagem muito específica e nem sempre positiva de perfil de fã.

Dentro da comunidade, sabemos que os fãs são extremamente diversos, principalmente em relação à idade, já que o K-pop é dividido em gerações. Além disso, o pop está longe de ser o único gênero musical forte na Coreia do Sul, que também tem hip hop, R&B, baladas e muitos outros estilos dominando charts e rankings de popularidade. Ainda assim, essa pluralidade está longe de ser o que o grande mercado entende como o público do K-pop.

Existe um consumo que vai muito além da música e envolve a vida do artista, identidade, mobilizações online, produtos físicos, benefícios exclusivos e muito mais. Essa “fama” pouco saudável associada aos fãs da cultura coreana, infelizmente, vem do comportamento de uma parcela do fandom que, muitas vezes, é indiretamente endossado, e até financiado, pelas próprias empresas dos artistas.

E, na minha opinião, esse é o grande diferencial dessa questão, uma vez que: fã problemático não é algo exclusivo do K-pop.

Mas isso é papo para outro texto!

“Será que isso pode mudar algum dia?”

Claro que sim. Todo gênero musical já enfrentou (ou ainda enfrenta) problemas de validação social. O samba já foi criminalizado, o rock já foi visto como coisa de rebelde sem futuro, e por aí vai. Tudo depende de conhecimento e popularidade. É, literalmente, uma questão de espalhar a palavra.

E é aí que 2026 entra com os dois pés na porta, sendo um ano incrível para o K-pop, especialmente aqui no Brasil.

Logo no início do ano, temos RIIZE e KATSEYE no lineup do Lollapalooza Brasil, que acontece nos dias 20, 21 e 22 de março, em São Paulo. Além disso, o RIIZE ainda terá um sideshow — um show solo fora do festival — também na capital paulista.

Quando esse line-up foi anunciado, foi uma explosão de emoção entre os fãs de K-pop, que haviam ficado bastante decepcionados com a edição de 2025. Enquanto outros países apostaram em grandes grupos, o line do ano passado foi um verdadeiro balde de água fria. Já em 2026, o clima mudou completamente, e a presença desses grupos em festivais desse porte é extremamente importante.

O Lolla, pelo menos em teoria, sempre foi um festival mais alternativo, com a proposta de reunir artistas e estilos mais nichados, oferecendo ao público a chance de descobrir sons fora do mainstream. Com o tempo, essa proposta se diluiu um pouco, mas ainda assim é fundamental que estilos como o K-pop estejam ali, principalmente para quem tem pouco ou nenhum contato com o gênero.

E se o Lolla já foi uma grande notícia, imagina a reação da comunidade com o anúncio do Stray Kids como headliner do Palco Mundo no Rock in Rio, no dia 11 de setembro, no Rio de Janeiro.

Aqui a conversa muda completamente.

O crescimento do Stray Kids tem sido impressionante, com conquistas gigantescas. Globalmente, o grupo entrou para a história ao se tornar o único artista a estrear oito álbuns consecutivos em 1º lugar na Billboard 200. Além disso, foi responsável pela turnê de K-pop mais lucrativa do ano e ficou em 10º lugar no ranking geral.

No Brasil, em abril de 2025, o grupo realizou três shows em estádios, um no Rio de Janeiro e dois em São Paulo, reunindo cerca de 185 mil pessoas nos três dias da “dominATE Tour”.

Por tudo isso, acredito que o Stray Kids pode marcar o início de uma nova imagem do K-pop no Brasil.

O Rock in Rio é um dos maiores — se não o maior — festival de música do mundo. É um sonho para qualquer artista, não apenas pelo tamanho do público, mas pela visibilidade e pelo peso simbólico de subir naquele palco, especialmente no Palco Mundo e ainda mais como headliner.

Será, muito provavelmente, um show televisionado, amplamente divulgado, visto não só pelo Brasil, mas pelo mundo inteiro. Dá para entender como o K-pop pode mudar de patamar na cabeça das pessoas, principalmente aqui no país?

Esse momento vai além das STAYs (fãs do Stray Kids). Honestamente, é um marco para qualquer fã de K-pop que sonha em ver seu grupo performando em um palco desse tamanho. Pode ser uma porta enorme para outros grupos e solistas, não apenas coreanos, mas também artistas de outros países do leste asiático, como a china.

Jackson Wang, por exemplo, volta ao Brasil em abril, desta vez com dois dias de shows, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Dentro da nossa bolha, sabemos o quanto o público de K-pop é diverso e vai muito além das pré-adolescentes de 13 anos (nada contra as divas!). Sabemos da grandiosidade dos shows e dos festivais que rolam na Ásia e do tamanho dos nossos artistas lá. Mas, infelizmente, muita gente ainda não sabe disso, e essa é uma percepção que tem tudo para começar a mudar em 2026.

 

Texto escrito por Flah Pacheco. Leia mais textos sobre esse e outros demais no seu blog "Flah City" clicando aqui.