A discussão que eu quero propor hoje é: qual é a sua relação com os seus hobbies?

Fiquei pensando muito nisso ao longo de 2025. Foram muitos shows, fanmeetings, eventos, álbuns, comebacks e debuts. Tudo isso custa tempo e, principalmente, dinheiro. É um investimento que faz a gente se questionar, em algum momento: “o que eu estou fazendo da minha vida?”.

Dizer do que a gente realmente gosta já é desafiador por si só, mas fica ainda mais complicado quando esse gosto não faz sentido socialmente. Algo que não “condiz” com a sua idade, gênero, estilo ou personalidade, de acordo com normas sociais meio engessadas. Nesses casos, falar abertamente sobre isso — ou até encontrar pessoas que compartilhem os mesmos hobbies — vira uma missão difícil, porque “não temos cara” de quem gosta de x, y ou z.

Nesse ponto, a internet ajuda bastante, permitindo que a gente encontre a nossa turma de forma mais rápida e fácil.

Supondo que a gente consiga vencer essa fase e encontre alguém que aparentemente goste das mesmas coisas que nós… não se enganem: ainda não estamos livres. É aí que surge um dos maiores desafios: ser ouvido entre os seus iguais.

E nem estou falando daquela galera que adora criar um “manual de como ser fã”, ou que se vangloria de ter gostado primeiro, lido primeiro, ouvido primeiro, colecionado primeiro. Os famosos “desbravadores do mundo pop”, que acham que sabem tudo e que têm o dever delulu de te “guiar” nesse hobby.

Cara… que ranço.

Às vezes, estamos tão desesperados para fazer parte de um grupo ou simplesmente manter uma amizade de fácil manutenção, que nos permitimos ficar calados. Literalmente. E, então, um hobby que deveria servir para relaxar acaba virando um grande elefante branco na sala.

Certa vez, tive uma epifania: qualquer pessoa tem o direito de ser fã do que quiser, mas quem é fã de tudo, muito provavelmente, não é fã de nada.

Vamos analisar isso em duas partes, ok?

“Qualquer pessoa pode e tem o direito de ser fã do que quiser.”

Aqui o leque se amplia, percebe?

Às vezes, o seu colega de escritório, hétero top, viciado em creatina e na garrafa de água de 2 litros, faz o treino ouvindo TWICE. Aquela sua prima patricinha, do aplique de cabelo verdadeiro e unha de gel, passa as noites de sexta-feira com uma tigela de lámen assistindo membros serem decepados em Jujutsu Kaisen. A senhora da sua turma de pilates pode muito bem ter um photocard do Pavel dentro da bolsa.

E o mais legal? Existem grandes chances de esse pessoal nunca te julgar se você não souber o signo do seu idol, se assistiu ao anime dublado em vez de no idioma original ou se não briga por ship no Twitter. Simplesmente porque é um povo que tem vida social e louça na pia.

“Mas quem é fã de tudo, muito provavelmente, não é fã de nada.”

Aqui entra a questão do tempo livre. Além de nem todo mundo ter as mesmas condições, todos nós temos apenas 24 horas por dia. Existem outras áreas da nossa vida que, em algum momento, vão precisar de atenção e que ajudam a construir quem somos. Nós não somos apenas o nosso trabalho, nem apenas a nossa família, nem apenas o nosso estilo ou o lugar de onde viemos. O ser humano é um conjunto de muitas coisas, logo, não é qualquer rótulo que nos define.

Nossos hobbies seguem esse mesmo caminho.

Por exemplo: ser fã de Stray Kids é entender que você curte um boy group de K-pop, dentro do gênero pop, dentro da cena musical. Você pode ser multifandom e gostar de Stray Kids e ATEEZ. Mas dizer que é muito fã de todos os boy groups igualmente acaba soando como se todos fossem a mesma coisa — o que lembra bastante aquela frase clássica de hater: “esses K-pop é tudo igual”.

Isso também não significa que, para gostar de um, você precise odiar o outro. Isso não faz o menor sentido. Significa apenas que você se dedica mais a um grupo específico: compra álbum, photocard, sabe os nomes, investe nos lugares mais caros dos shows etc.

E isso pode ser totalmente sazonal. Um dia você escuta mais um, depois muda. Hoje você gosta do Pikachu, amanhã o favorito é o Charmander, e está tudo certo. Ninguém tem o direito de te definir pelo que você é fã, nem quem está fora da comunidade, muito menos alguém de dentro dela.

Vou dar um exemplo pessoal da minha virada de ano.

O meu “Ano Novo do Vecna” reuniu ótimos amigos, oficina de photocard, drinks, bolo com a cara do Eddie e uma decoração temática para todo mundo entrar no clima do episódio final de Stranger Things. Rimos, choramos e vivemos algo que, para muitos, pode parecer chato, brega, nerd, afetado, infantil, sem noção ou esquisito, mas que, para nós, foi incrível e até revigorante.

No fim das contas, é como diz o ditado: ninguém paga as minhas contas.

E ser fã com os seus amigos é bom demais!

 

Texto escrito por Flah Pacheco. Leia mais textos sobre esse e outros demais no seu blog "Flah City" clicando aqui.