Que Bad Bunny fez história no Super Bowl 60th, todo mundo já sabe, principalmente nós, latinos. E neste fim de semana, dias 20 e 21, ele vai emocionar o Brasil também.
É exatamente por isso que eu quero falar sobre ele hoje.
Semana passada, o The Korean Times publicou: “O que o K-pop e Bad Bunny têm em comum: poder da língua, fandom e orgulho da própria cultura”.
Então me veio a perguntar: dá mesmo para comparar esses dois movimentos?
Existe, literalmente, um oceano entre eles. Um oceano geográfico, político, histórico e ideológico. E ignorar isso é simplificar demais duas construções culturais que nasceram de lugares completamente diferentes.
Se já é difícil para nós, brasileiros, entendermos todas as camadas da identidade latina, imagine para um sul-coreano.
A arte de Bad Bunny é política. É social. É declaração. Ele não está tentando conquistar o mercado estadunidense, ele está reafirmando que os latinos já são parte dele. A obra dele é resistência, é memória, é afirmação de território. Não existe a intenção de suavizar o discurso para ser mais “aceitável” para o mainstream norte-americano. Pelo contrário: ele tensiona, provoca, incomoda.
Ele não pede espaço. Ele ocupa.
E isso é completamente diferente do projeto do K-pop e da onda Hallyu.
O K-pop é, antes de tudo, indústria e planejamento de mercado. É um produto extremamente bem construído, sim. Mas ainda assim um produto. Ele nasce dentro de um sistema pensado para exportação cultural e retorno financeiro.
As empresas controlam cada etapa: escolhem produtores, letristas, coreógrafos, estilistas e os próprios idols. Mais do que escolher, moldam. Jovens entram como trainees aos 12 ou 13 anos e debutam aos 17 ou 18 já completamente formatados. Treinam canto e dança, mas também treinam postura, fala, reações, personalidade pública.
Tudo isso segue um padrão social sul-coreano muito específico. Valores, estética, comportamento, imagem corporal. Tudo alinhado a um ideal conservador e socialmente validado dentro da Coreia do Sul.
Quando o objetivo é conquistar o mercado dos EUA, fazem pesquisas. Quando a meta é alcançar a América Latina, adaptam sonoridades. Hoje vemos mais reggaeton, mais funk, mais influência latina porque é o que está em alta.
Enquanto Bad Bunny cria a partir de identidade, o K-pop adapta a identidade ao mercado.
E aqui entra um ponto delicado: liberdade.
Não estou falando de media training, até porque toda figura pública tem filtros. Estou falando de liberdade pessoal real. Idols não podem namorar livremente, falar o que pensam, construir a própria narrativa. Existe controle.
E existe também a questão estética. Jovens debutam ainda em formação e já entram em um sistema que impõe padrões rígidos de corpo, aparência e comportamento. Isso vai além de “pressão da mídia”.
Mas, para mim, o ponto mais sensível é outro: a imposição cultural.
O K-pop não é feito apenas por sul-coreanos. Há artistas chineses, japoneses, tailandeses, taiwaneses, filipinos e muitos outros. Só que, ao entrarem no sistema, suas identidades nacionais quase desaparecem. Eles celebram o Chuseok, vestem hanbok, aprendem história sul-coreana — o que é compreensível dentro de um mercado nacional.
O problema é quando não há reciprocidade.
Quando não há espaço para o Ano-Novo Chinês, o Songkran e outras tradições que também fazem parte da trajetória desses artistas.
Isso não é simples. O Leste Asiático carrega feridas históricas profundas, colonizações, guerras, disputas territoriais. Existe uma tensão real ali. Mas essa rigidez cultural acaba limitando o K-pop enquanto movimento verdadeiramente plural.
É justamente aqui que a comparação feita pelo The Korean Times falha.
Bad Bunny é porto-riquenho — e profundamente porto-riquenho. Mas ele não apaga o resto da América Latina, ele abraça. Ele cita, mistura e reconhece que a força latina está justamente na diversidade.
Somos latinos, mas somos brasileiros, chilenos, cubanos, argentinos, porto-riquenhos.
Somos plurais.
E talvez seja essa a diferença central: um movimento nasce para afirmar identidade sem pedir permissão; o outro nasce para ser estrategicamente aceito.
E isso muda tudo.
Texto escrito por Flah Pacheco. Leia mais textos sobre esse e outros demais no seu blog "Flah City" clicando aqui.
